Data centers enormes, startups de IA avaliadas em bilhões antes mesmo de lançarem produtos, e investidores apostando pesado em promessas incertas. Se você está vendo sinais de uma bolha em torno da Inteligência Artificial, não está sozinho.
Três historiadores econômicos consultados por publicações americanas, como The Verge e Wired, concordam: sim, estamos em uma bolha de IA.
Mas o que a história nos diz sobre esse tipo de fenômeno? Como ele começa, por que explode e o que vem depois? Mas antes de tudo, o que podemos entender por “bolha”…
Refere-se a um fenômeno em que:
- ativos ou setores sofrem valorização muito acima dos fundamentos (lucros, utilidade, receitas futuras esperadas, etc);
- expectativas futuras exageradas;
- muitos investidores participando, alguns ignorando riscos;
- eventual correção ou queda abrupta quando expectativas não se confirmam.
Várias bolhas históricas envolvem tecnologias vistas como “transformadoras” como ferrovias, rádio, internet, etc.
Conteúdo
🧩 Elementos históricos de bolhas de tecnologia
Alguns episódios chave:
- Railway Mania (Inglaterra, década de 1840)
A expansão ferroviária prometia conectar cidades e transformar comércio. Muitas linhas foram propostas sem avaliação real de demanda; investimentos superestimaram custos e retornos. Depois do pico, muitos projetos fracassaram; ações despencaram. - Bolha pontocom (Final dos anos 1990 e início dos 2000)
- Explosão de empresas internet com modelos de negócio pouco comprovados.
- Vários IPOs, especulação em alta, pouca solidez nos números. Quando a confiança caiu, muitos ativos perderam quase todo valor.
- Entretanto, empresas sólidas que sobreviveram (como Amazon) emergiram com força no pós-bolha.
- Outros exemplos menores ou relacionados: bolha de telecomunicações, bolha de social media, etc.
🚨 Sinais de que há uma possível bolha de IA
Com base em análises recentes, podemos listar vários indícios de que estamos em uma bolha ou perto disso:
- Valorações altíssimas independentemente de receita ou lucro robusto: Startups de IA têm sido avaliadas com múltiplos muito elevados, com pouco histórico de retorno. Investidores apostam fortemente no futuro, muitas vezes com base em promessas ou hipóteses.
- Capital abundante “flutuando”: Muitos recursos de venture capital, fundos institucionais, investidores menos experientes entrando na disputa. Isso amplia o volume de investidores que podem “se queimar” quando há correção.
- Infraestrutura pesada, mas custo elevado / incerteza no retorno: Data centers gigantes, alto consumo de energia, investimento antecipado, grandes expectativas logísticas. Se os benefícios não corresponderem, poderá haver desequilíbrios.
- Comparações diretas com dot-com: Líderes do setor já admitem semelhanças (e diferenças). Por exemplo, Sam Altman (OpenAI) disse que sim, existe uma bolha de IA.
- Bolha de hype / expectativas: Cientistas, publicações, conferências, mídia intensificam expectativas. Estudos recentes procuram padrões de “publicações + citações” que se correlacionam com bolhas anteriores.
💭 A bolha de IA pode ser diferente?
Não tudo se compara perfeitamente. Aqui estão alguns fatores que podem fazer com que a bolha de IA seja distinta (mais longa, mais complexa, menos “limpa” no estouro):
- Maturidade relativa de algumas aplicações: Ao contrário de muitos modelos da era pontocom, IA já está presente em produtos e serviços com uso real (saúde, automação, etc.). Isso reduz (mas não elimina) o risco de ser tudo hype.
- Potência de empresas consolidadas: Grandes empresas com escala, capital, infraestrutura. Mesmo que haja falhas ou perdas, essas grandes entidades podem suportar choques que startups menores não.
- Diversificação de uso / múltiplos “sinais de tração”: Ao invés de um único produto ou promessa de lucro, existem múltiplos sub-segmentos de IA onde inovação já começou (modelos de linguagem, visão computacional, automação de processos, etc.). Isso cria “várias frentes” e se algumas podem falhar, outras vingarão. Isso dilui levemente o risco de um crash único, embora possa gerar colapsos setoriais.
💸 Possíveis cenários de como (e quando) pode estourar, e consequências
Historicamente, bolhas não estouram de repente da mesma forma em todos os setores. Alguns prováveis cenários:
- Estouro gradual: Alguns negócios de IA não entregam, investidores perdem fé em determinados modelos ou promessas, há correções locais (setoriais), queda em valuations de startups específicas.
- Choques externos: subida de juros, crise energética, regulamentações, escassez de componentes (hardware), problemas de segurança ou ética podem funcionar como gatilhos de correção.
- Impacto financeiro amplo: Se empresas gigantes de IA vacilarem, isso pode afetar mercados de ações, fundos de pensão, investimento institucional. Muito maior efeito sistêmico do que uma bolha menor.
- Após o estouro: O mais provável é que muita inovação se mantenha e tecnologias promissoras que de fato funcionam vão continuar, populações e empresas que investiram em IA vão reter alguns ganhos. Assim como com a internet após a bolha pontocom. Muitas empresas que pareciam “ultra-valorizadas” vão desaparecer, mas algumas vão emergir mais fortes.
📉 O que acontece depois que uma bolha estoura?
Apesar do pânico que segue o colapso de uma bolha, a tecnologia raramente desaparece.
Andrew Odlyzko, um matemático da Universidade de Minnesota que pesquisa bolhas tecnológicas, relembra o caso das ferrovias do século XIX:
“A bolha estourou, houve perdas e lamentos, mas o tráfego ferroviário continuou crescendo.”
O mesmo ocorreu com a internet: a bolha pontocom estourou, mas dela nasceram Amazon, Google e a economia digital que conhecemos hoje.
Lee Vinsel, professor associado de tecnologia e sociedade na Virginia Tech resume:
“As bolhas criam as bases para transformações reais. Elas permitem investimentos que, embora irracionais do ponto de vista financeiro, pavimentam o caminho para mudanças duradouras.”
🌍 Bolha ou transição inevitável?
A história parece clara e compara que estamos sim em uma bolha de IA. Mas isso não significa que a tecnologia vá sumir.
Assim como as ferrovias e a internet, a Inteligência Artificial deve continuar evoluindo, mesmo que os números de mercado se ajustem.
O desafio agora é separar o hype da inovação verdadeira. E, principalmente, entender que as bolhas não são o fim, são apenas parte do processo de amadurecimento tecnológico da humanidade.
